Morreu pintor que imortalizou genocídio dos Khmer Vermelhos no Cambodja

Morreu pintor que imortalizou genocídio dos Khmer Vermelhos no Cambodja

Phnom Penh, 05 set (Lusa) - Vann Nath, o pintor que imortalizou nos seus quadros o horror do genocídio perpetrado pelos Khmer Vermelhos e um dos sete sobreviventes da mais atroz das suas prisões, a S-21, morreu hoje, aos 66 anos.

O artista plástico morreu numa clínica em Phnom Penh, na sequência de um ataque cardíaco sofrido a 26 de agosto, que o deixou em coma profundo de que não voltou a despertar.

Com as suas cores frias e figuras esqueléticas, Vann Nath obtivera o reconhecimento internacional, por representar com grande realismo as torturas e as duras condições de vida no Cambodja durante o regime dos Khmer Vermelhos (1975-79), em que morreram cerca de dois milhões de pessoas.

Os seus grandes quadros, que ainda cobrem as paredes da S-21, a prisão em Phnom Penh onde esteve um ano encarcerado, mostram cenas lúgubres de homens espancados, obscuros interrogatórios e mães que lutam para que não lhes arranquem os filhos dos braços.

Vann Nath nasceu em 1946 numa família pobre da província de Battambang, no norte do Cambodja, e desde jovem estudou desenho e pintura, apesar dos seus escassos recursos.

Após a queda do país nas mãos dos Khmer Vermelhos, teve de abandonar a pintura, porque o novo regime castigava com a morte os artistas e intelectuais, e foi enviado, como todos os seus compatriotas, para trabalhar no campo.

Em 1978, a polícia política deteve-o e encarcerou-o na principal prisão do regime, a S-21, cujo diretor, Kaing Guek Eav, ou Duch, o seu nome revolucionário, se interessou pelo seu talento artístico e o encarregou de pintar um retrato de Pol Pot, o 'irmão' número um do regime.

Duch apreciou o trabalho realizado pelo artista e escreveu uma nota pessoal ao lado do nome de Vann Nath: "Conservar o pintor".

Bou Meng, outro dos sobreviventes da mesma prisão, que também não foi assassinado graças à sua arte, disse: "Prolongavam-nos a vida se lhes agradavam os quadros que pintávamos. Pintar era a nossa única esperança de continuarmos vivos".

Entre 14 mil e 16 mil pessoas passaram pela S-21 e quase todas morreram nos interrogatórios e nas execuções.

Para serem libertados, Vann Nath, Bou Meng e outros cinco sobreviventes da S-21 tiveram de esperar que o exército vietnamita entrasse em Phnom Penh, em janeiro de 1979.

Pouco depois, o centro de detenção foi transformado num museu e Vann Nath pôde usar os seus pincéis para representar de forma fidedigna o que sofrera entre aquelas paredes.

"A experiência de Vann Nath dentro daquela prisão foi tão intensa que marcou toda a sua obra posterior, mesmo trabalhos que não são exclusivamente dedicados ao tema dos Khmer Vermelhos têm um certo simbolismo relacionado", indica o artista Sopheap Pich, que trabalhou com ele nos últimos anos.

As caveiras e as figuras alongadas juntaram-se, assim, a outro tipo de motivos, como paisagens ou cenas de costumes, ao passo que algumas das suas obras se afastavam do realismo para se aproximarem das técnicas simbolistas.

Trinta anos depois de recuperar a liberdade, Vann Nath voltou a ver Duch no tribunal internacional que está a julgar na capital cambojana os principais líderes dos Khmer Vermelhos.

"As condições eram tão desumanas e a comida tão escassa que até pensei que a carne humana seria um bom prato", disse o pintor no banco das testemunhas, em junho de 2009.

"Comíamos ao lado de cadáveres, mas não nos importávamos, porque éramos como animais", acrescentou, com um olhar apagado que evidenciava já que padecia de uma doença renal.

A sentença de 35 anos a que o tribunal condenou Duch, em julho de 2010, deixou no pintor um travo amargo, por ser tão leve.

Os seus últimos alunos, com quem trabalhou na manhã de 26 de agosto, em que teve o ataque cardíaco, recordam-no como um trabalhador incansável que sempre procurava técnicas novas para ensinar os mais jovens.

"Deu-me um conselho que nunca esquecerei: 'Se és um artista de verdade, trabalha até ao último dia da tua vida'", disse Prom Putisal, aluno da Universidade Real de Belas Artes da capital cambojana.

ANC.

Lusa/fim