Passos Coelho andou mal. Não é muito difícil de perceber que uma coisa é retirar 20.000 euros a quem ganha 10.000 euros por mês, outra coisa é retirar 2.000 euros a quem ganha 1.000 por mês. Prescindir de uns jantares no Tavares Rico não é o mesmo que sentir sérias dific*ldades.
O caso de uma família de 3 pessoas: marido, mulher, um filho. O homem ganha 1.020 euros por mês. A mulher não consegue arranjar trabalho. Com 1.020 euros têm que pagar a prestação da casa, a alimentação,a energia eléctrica, a água, os transportes, as despesas com os estudos do filho, os artigos de higiene, uma ou outra despesa adicional indispensável. Quanto lhes sobrará no fim do mês? Os 1020 euros darão para tudo? O Dr. Passos Coelho já pensou bem o que é sobreviver nestas condições? Nestes casos os subsídios de férias e Natal são normalmente utilizados para tapar buracos. Ao retirar esses subsídios está a colocar essas famílias numa situação aflitiva.
Compreende-se e pode aceitar-se que, devido à desgraçada situação a que os nossos ilustres governantes conduziram o país, haja necessidade de fazer alguns sacrifícios. Mas que esses sacrifícios sejam repartidos REALMENTE por todos e não apenas pelos pobretanas.
Numa sociedade civilizada todas as pessoas deviam poder satisfazer as suas necessidades básicas.
Nem só os ricos precisam de casa. Os pobres também.
Nem só os ricos têm estômago. Os pobres tanbém têm.
Nem só os ricos precisam de ser bem tratados quando adoecem. Os pobres também.
Nem só os ricos devem poder proporcionar uma boa educação aos filhos. Os pobres também.
A possibilidade de qualquer criança singrar na vida não devia ser condicionada ou limitada por dific*ldades económicas.
Mais grave que o erro da decisão tomada é o facto de, com esse erro, Passos Coelho ter desperdiçado uma oportunidade soberana para proc*rar atenuar um pouco as enormes desigualdades sociais que existem em Portugal. O anúncio desta decisão vai certamente fazer explodir uma onda de revolta de consequências imprevisíveis. Uma onda de revolta perfeitamente compreensível. Afinal os pobretanas são os únicos que irão na verdade fazer sacrifícios? Isto é tremendamente injusto. Onde estavam os seus conselheiros, sr. Primeiro-Mininistro?
Claro que muita gente vai gritar: ALTO E PÁRA O BAILE.
Os sindicalistas estão certamente a esfregar as mãos de contentes. Deu-lhes um óptimo brinde, mesmo sem ser Natal. Que grande oportunidade para se exibirem e proc*rarem justificar os tachos que guardam há dezenas de anos. São piores que os políticos.
Salazar era um facínora. Não deixava que os democratas metessem a mão na massa. Pegou no país quando o país estava na miséria. A moeda portuguesa nada valia internacionalmente. Quando ocorreu o 25 de Abril, as reservas de Portugal em ouro e divisas oc*pavam o oitavo lugar dos países mais ricos do mundo. O país não tinha dívidas. O esc*do era uma moeda forte. Que tentação para os nossos democratas. Tanta riqueza à mão de semear! Viva a liberdade! Em pouco mais de 35 anos pregaram com o país de novo na miséria.
O país, que eles estão bem. Bons ordenados, boas reformas, bons tachos, boas negociatas, boa corrupção, bom tráfico de drogas, justiça à medida. Um pântano.
Que pena não haver quem consiga congregar o descontentamento popular transformando-o num movimento que ajude, de facto, a endireitar o país, a arrancá-lo do atoleiro onde mergulhou, a acabar com a miséria que por aí vai. Talvez um movimento 24 de Abril.
Os sacrifícios iam ser pedidos a todos. Claro que sim. Que grande sacrifício não é ter que deixar de jantar no Tavares.
Também eu digo: ALTO E PÁRA O BAILE.